O QUE NOS ENSINAM A ODIAR


Quando eu era criança, antes mesmo de entender o que significava a vida, já sabia o que não podia ser.

Não podia chorar demais. Não podia demonstrar medo. Não podia ser delicado. Não podia gostar de determinadas brincadeiras, roupas, gestos ou formas de falar. A masculinidade me foi apresentada não como uma construção positiva, mas como uma lista de proibições. Ser homem significava, acima de tudo, não ser associado ao que a sociedade classificava como feminino.

Talvez essa seja uma das bases mais perversas do machismo.

Meninos não crescem aprendendo o que é maturidade, responsabilidade, cuidado ou empatia. Crescem ouvindo que precisam se afastar de tudo aquilo que foi historicamente associado às mulheres. Como se o feminino representasse fraqueza, inferioridade ou submissão. Como se a pior coisa que pudesse acontecer a um menino fosse ser comparado a uma menina.

"Não chore." "Isso é coisa de mulherzinha." "Vire homem."

São frases aparentemente simples, repetidas de geração em geração, mas que carregam uma violência profunda. Elas ensinam que sensibilidade é defeito. Que vulnerabilidade é vergonha. Que afeto é sinal de fraqueza. E, ao mesmo tempo, ensinam que aquilo que é associado às mulheres vale menos.

O resultado é uma sociedade que não apenas oprime mulheres, mas também mutila emocionalmente os homens.

Muitos homens chegam à vida adulta incapazes de expressar sentimentos, construir intimidade ou reconhecer suas próprias fragilidades. Não porque nasceram assim, mas porque foram treinados para acreditar que humanidade é algo incompatível com masculinidade.

E talvez seja justamente aí que o problema ultrapasse a questão de gênero.

Porque uma sociedade que ensina crianças a desprezar a fragilidade é a mesma sociedade que aprende a desprezar qualquer pessoa considerada vulnerável.

O imigrante que atravessa fronteiras em busca de dignidade passa a ser visto como ameaça. O trabalhador explorado vira apenas um número. O descapitalizado é tratado como culpado pela própria falta de capital, herança, etc. O sofrimento alheio deixa de gerar solidariedade e passa a ser encarado como um detalhe inevitável da engrenagem social.

Vivemos em uma época que se vende como moderna, tecnológica e desenvolvida, mas que frequentemente reproduz lógicas muito antigas de poder. A concentração de riqueza cresce. O acesso a direitos básicos se torna cada vez mais desigual. Grandes grupos econômicos acumulam fortunas inimagináveis enquanto milhões lutam pela sobrevivência.

Em muitos aspectos, parece que estamos assistindo ao retorno de uma mentalidade quase feudal: poucos concentrando recursos, poder e influência, enquanto muitos são empurrados para relações de dependência e precariedade. A dignidade humana se torna secundária diante do lucro, da produtividade e da competição.

Nesse contexto, o machismo não é um fenômeno isolado. Ele faz parte de uma cultura mais ampla que transforma pessoas em categorias hierárquicas. Uma cultura que precisa definir quem vale mais e quem vale menos. Quem manda e quem obedece. Quem merece cuidado e quem pode ser descartado.

A mesma lógica que ensina um menino a rejeitar o feminino é capaz de ensinar uma sociedade inteira a rejeitar estrangeiros, descapitalizados, minorias e todos aqueles que não ocupam posições privilegiadas dentro da estrutura social.

Por isso, combater o machismo não significa apenas defender mulheres. Significa defender a humanidade.

Significa ensinar às crianças que chorar não é fraqueza. Que cuidar é uma virtude. Que empatia não diminui ninguém. Que fragilidade faz parte da condição humana. Que não existe vergonha em sentir.

Talvez a verdadeira coragem não esteja em endurecer o coração para sobreviver em um mundo cruel. Talvez esteja justamente em recusar essa crueldade.

Porque toda vez que uma criança aprende que pode ser sensível sem deixar de ser forte, damos um passo para longe da violência.

E toda vez que reconhecemos a humanidade de quem foi transformado em invisível, seja uma mulher, um imigrante, um trabalhador explorado ou qualquer pessoa colocada à margem, damos um passo para longe das hierarquias que sustentam a desigualdade.

O futuro não será mais humano porque teremos tecnologias melhores. Será mais humano apenas quando aprendermos a enxergar valor nas pessoas antes de enxergar utilidade nelas.

E essa é uma lição que deveríamos ter aprendido desde a infância. Não a de odiar o feminino, odiar as diferenças e priorizar os capital, mas a de reconhecer a humanidade em todas as suas formas.

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