A JOVEM FAVELA DIGITAL

 A jovem favela digital de hoje, tantas vezes, passa por cima da própria ancestralidade em troca de likes e visualizações.

Que hajam mais Berenices do que Jerusas — fazendo eco à analogia de Cidade de Deus, vinte anos depois. 

Essa juventude da favela digital se mostra burguesa e capitalista, embranquecida e cercada de privilégios.

Privilégios esses que, na prática, excluem os corpos que sempre teceram a história, para que, ainda hoje, seus herdeiros sigam roubando o que nunca lhes pertenceu.

Enquanto isso, corpos pretos e favelados vivem a escassez.

Na moda de parecer o que não é, sobra para nós, favelados, sempre as migalhas da margem.

Produzimos, criamos, sustentamos o pulso da cultura, mas não somos reconhecidos por isso.

Muitos MC’s já morreram ou vivem no anonimato, vítimas da decepção com o caminho que a cultura tomou — exposta como corpo-cêntrica, sexual, esvaziada da sua raiz.

E onde estão os corpos reais?

Os de mais de 30, que conhecem e entendem a estrutura favelada na pele?

Até a nossa ancestralidade vem sendo sequestrada: umbanda, candomblé, rituais indígenas, todos apropriados por quem nunca criou nada, nunca viveu a escassez, e ainda assim se acha no direito de roubar o que é sagrado.

Existe, sim, um abismo social e estrutural.

E esse abismo faz com que quem nunca respeitou a si nem aos seus ache que apagar e roubar é o mesmo que enaltecer.

Mas não é.

Porque o que carregamos é maior do que qualquer vitrine, maior do que qualquer conhecimento exposto por quem não viveu, não sofreu e não resistiu.


Vivendo fora do Brasil, acabo por enxergar o óbvio:

o problema é justamente a incapacidade de criar algo impactante, algo que prenda e gere interesse real.

É preciso que a favela e o funk ocupem o mesmo patamar que o samba, que possam reivindicar e tomar de volta — de assalto — essa juventude vazia de princípios.

E que o funk e a favela não sejam vistos apenas como algo impuro ou imoral.

Que não deixemos ser contrabandeados em forma de conceito para que o apropriador enriqueça.

Que os mais velhos tenham orgulho da luta que travaram, e não apenas vergonha por verem sua existência tratada de forma depreciativa.

Que a favela seja falada como potência.

Porque há tanta potência que, mesmo com tudo isso, até hoje continuamos a erguer algo maior do que qualquer livro ou historiador burguês consiga mensurar.

Que nossas vozes ganhem o mundo, e não sejam mais proferidas por bocas burguesas.

E que nunca mais deixemos corpos que não viveram os anos 80 e 90 dentro da comunidade ditarem o que é favela.


Não podemos aceitar que o recorte burguês — de subir ou adentrar a favela apenas para uma festa — seja replicado como realidade.

Somos muito mais que batidas estranhas, misturadas de forma desleixada para gerar visibilidade.

A favela é feita de engenheiros, pais de santo, médicos, dançarinos, historiadores, donas de casa, motoristas, produtores, funkeiros, sambistas, religiosos.

Todos vivem em harmonia.

A favela é mais plural do que qualquer conhecimento burguês consiga compreender.


“Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci.

E poder me orgulhar, e ter a consciência de que o pobre tem seu lugar.”

— MC’s Cidinho e Doca.


Que possamos ter isso de verdade.

Que tenhamos lugar e espaço para falar, dançar, cantar, expor nossa potência, nossas criações.

Que se abram caminhos.

Que venham investimentos para a favela real.

Chega de apropriações.

Que o digital possa, enfim, encontrar o que é real.

Que a tia da merenda, os professores que enfrentam fogo cruzado para lecionar, os médicos que trabalham em zonas perigosas, os artistas que salvam vidas arriscando a sua dentro das comunidades…sejam vistos e celebrados.

Que as histórias feias e doloridas possam ganhar tanta visibilidade quanto as dos nômades digitais.

Que mais influencers reais — favelados — ganhem o mundo e possam salvar mais vidas da burguesia real.


" ESSÊNCIA NÃO SE COMPRA.

FAVELA NÃO SE REPLICA." - Felippe Santos 


Não posso aceitar que façam de nós um circo, quando para mim — e para muitos — isso é habitat.

Queremos saúde, educação, arte, visibilidade e espaço na sociedade.

Chega de tendência rasa, de dancinha para inflar vaidade.

Quantos corpos favelados reais estão ganhando dinheiro com a sua cultura?

Sem fingimento, sem reduzir o corpo preto a mercadoria sexual, sem precisar mostrar a bunda para existir?

Querem somente o nosso corpo — não a nossa história.

Pergunto: alguém aí já viveu a realidade de ser excluído da própria história?

Será que querem as dificuldades também?

Duvido quem se apropria abrir a porta para alguém.

Não queremos mais ser objetos de pesquisa.

Queremos ser nós mesmos a mostrar.

Chega de responder a questionários de falsos visionários para o mundo girar.

Se for falar de favela, quero mesa só com favelados.

Chega de ouvir e ver pesquisa de quem nunca esteve ligado.

E baile funk se faz com 80% de corpos favelados, não o contrário.

Chega de enriquecer às custas de quem ainda hoje não tem nem o que comer no armário.

Estão vendendo a preço de banana mais uma parte rica e ancestral do Brasil.

Não somos bichos em zoológico nem tendências para quem nem nosso idioma reconhece — e uma vida de luta nunca sentiu.

Quero mais que ser reproduzido em “funk para sentar”.

Quero porta aberta, porque a excelência quer o trono que é seu lugar.


Não é protesto, é poema.

Vim para te lembrar o meu lema:

arte de rua na veia,

o funk é festa,

CARIOCA DAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO

E PATRIMÔNIO DA CULTURA BRASILEIRA.

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