GLAMUROSA DÉCADA DE 90
O Início dos anos 90 trouxeram na minha humilde opinião, a primeira onda de empoderamento e identificação visual para os corpos oriundos de comunidade. Para mim e muitos que viviam nas periferias das cidades, poder assistir e ouvir artistas que eram como nós (de comunidade), foi um impacto real na sociedade geral e na nossas perspectivas e metas da vida. Poder dançar livre, ouvir som onde a mensagem era justamente a única que compreendíamos, ter a nossa realidade em música, nas roupas, nos palcos, depois de muito tempo também TV, Adendo: O samba já fizera isso décadas antes, mas para a minha geração, dos 80 e pouco, a infância e adosescência fora nesta década dos 90 início dos anos 2000, justamente a era de ascensão do PATRIMÔNIO IMATERIAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, LEI FEDERAL DIA NACIONAL DO FUNK.
Crescendo em bairros distantes e morros das cidades de Niterói, São Gonçalo e Capital consegui absorver muito sobre o FUNK e principalmente para minha ótica foi poder conviver, interagir com os corpos que participaram direta e indiretamente da construção, difusão e expansão da cultura em si, afinal o FUNK BRASILEIRO (termo hoje usado mundialmente), nasceu no RIO de Janeiro.
"É PAPO DE FAVELA E POR FAVOR NÃO SE ESQUEÇA...QUE É PRA MEXER A RABA, MAS TAMBÉM COM SUA CABEÇA. " - Contém Funk
Os anos 90 trouxeram a maior expansão musical da periferia até então, saímos da marginalidade e iniciamos o empoderamento e a nos enxergar como artistas e agentes culturais, mesmo com tanta repressão, perseguição, guerras, etc.. O Funk e os MC's puxavam suas falas e apelos pela paz e suporte sociais para as suas respectivas comunidades, tal como em outros estados do país, e em outros países o Funk para o Rio de Janeiro é e foi como a cultura HIP-HOP para os Estados Unidos, TANTO QUE OS PRIMEIROS FUNK ERAM CHAMADOS DE RAP, EX.: RAP DA FELICIDADE, RAP DO SALGUEIRO, RAP DAS ARMAS, dentre outros. Outro fato importante é que nesta década tivemos a primeira mulher a cantar FUNK na história do movimento, MC CACAU - PRIMEIRA MULHER NO FUNK, também temos tantos Mc's como: Marcinho, Leonardo, Duda, William, Dando, Cidinho, Doca,Taffarel, Dolores, Coiote, Rapozão, Márcio, Goró, Suel, Amaro, Sinistro, Milão, Batata, Claudinho, Buchecha, Bob Rum, entre muitos outros.
O Funk se tornou também a expressão CULTURAL do favelado, periférico Carioca, que por sua vez só era "TOLERADO" no asfalto (termo usado para definir o território fora das favelas), sendo mão de obra ou em situação de subserviência para a sociedade elitista carioca, ou seja, o corpo favelado passou a não querer sair do seu habitat para se divertir, pois ali havia tudo que precisava: respeito, música feita para si, liberdade, artistas da sua comunidade, liberdade de ser quem é e segurança, até de ser um dos primeiros espaços seguros para corpos LGBTQIAPN+ pretos favelados, e assim como o Ballroom e Voguing nos EUA, o Funk e as favelas foram responsáveis por uma inclusão natural, mesmo numa época extremamente insegura e homofóbica que vivíamos devido a falta de informação, mas como exemplo digo que eu mesmo nunca vi um GAY sendo expulso ou renegado em uma comunidade por ser gay, afinal o respeito sempre foi a principal regra em toda e qualquer comunidade, e continua assim até hoje.
FURACÃO 2000
Não há como falar do FUNK e da sua expansão no Brasil e mundo, sem falar da equipe que foi responsável por promover bailes, eventos, festas, até programa de TV, além das suas coletâneas de CDS onde contiam as vozes das comunidades e seus MC's. Uma produtora completa com escritório em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, a Furacão como é chamada até hoje foi responsável por lançar ao mercado artistas como ANITTA, TATI QUEBRA BARRACO, MC CAROL DE NITERÓI, BONDE DO TIGRÃO, OS HAWAIANOS, CIDINHO E DOCA, CLAUDINHO E BUCHECHA, entre tantos outros.
Criada há mais de 45 anos pelo empresário Rômulo Costa, a empresa precursora do funk não é apenas uma equipe de som que arrasta multidões, é também uma produtora audiovisual e uma gravadora consolidada no mercado da música urbana, revelando vários talentos até hoje.
FUNKS DAS "ANTIGAS"ou "CLÁSSICOS DO FUNK"
"Pois até hoje nosso FUNK está por cima, ai que saudade que eu tenho do meu funk das antigas. Se tu não curtiu, os Dj's no vinil, então perdeu o melhor FUNK do Brasil." - MC Marcinho (in memorian).
Falar de FUNK é expressar liberdade, resiliência, luta, e muito mais que todos podem imaginar, esta cultura tão vasta e plural é mais do que a própria música pode expressar. É algo que traz tantas camadas que somente vivendo dentro de uma comunidade assistindo crianças, jovens, adultos, idosos cantando e dançando juntos e ecoando a voz de um povo que sofre tanto mas que continua de pé, faz qualquer ser que consegue furar a bolha e transitar por ambientes nada periféricos continuar a caminhada e se orgulhar da sua origem e propagar a excelência que é ser de comunidade e poder fazer parte da construção social cultural que é o FUNK. Falar de FUNK é falar de amor e também saudade, saudade daqueles que deram sua vida pela causa e movimento antes mesmo dessa propagação mundial que hoje assistimos, corpos estes que lá atrás visionaram esta situação e acreditaram, muitas das vezes sem comida, sem casa, sem suporte, sem apoio, espaço, enfrentando certo preconceito e muito desdém, pois hoje em dia é fácil dizer que o FUNK é nossa raiz, mas existe muita gente que fala de FUNK e nem sabe o que diz. Por isso vê lá onde pisa e respeita a camisa que A GENTE SUOU, respeite quem pode chegar onde o FUNK chegou. E quando chegar no BAILE FUNK procure primeiro saber quem EU SOU, e RESPEITE QUEM PODE CHEGAR AONDE A GENTE CHEGOU.
Quero aqui terminar e citar alguns dos meus ídolos e pioneiros do FUNK que já estão em outro plano, e com certeza felizes, orgulhosos do nosso movimento e pedindo passagem para os que continuam a batalhar para ter seu tão sonhado sustento através da sua arte que ainda hoje em pleno ano de 2024 continua sendo preterida dependendo do seu fenótipo, que abram-se as portas para os FUNKEIROS E ARTISTAS PLURAIS DO FUNK oriundos de comunidade e principalmente que os RESPEITEM por serem quem são. Vocês fazem falta mas fizeram história no meu e nos corações de todos os FUNKEIROS e conhecedores da cultura FUNK, obrigado e e COM TODO RESPEITO, REVERENCIEM: MR CATRA, MC MARCINHO, MC KÁTIA A FIEL, LACRAIA, CLAUDINHO, MC SAPÃO...O vosso legado nunca será em vão, continuamos e levaremos a mensagem que vai além da música, a cultura é muito mais adiante, e quero deixar minha mensagem que tudo daqui pra frente...CONTÉM FUNK !








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