Ninguém está Preparado

 Ninguém está preparado para a morte, muito menos aqueles que se foram e precisam encontrar seu caminho na luz. Porém, o nosso desespero neste plano carnal faz com que os que amamos fiquem submersos numa linha tênue entre seguir ou tentar nos guiar com sinais. Não há um dia em que eles não façam contato, e mesmo sem conseguir com precisão, ficamos presos apenas a lembranças e choros — às vezes, egoístas na posse.


Algumas pessoas choram hoje por remorso ou culpa; muitas, pela incapacidade de ter sido mais eficiente, mais próxima; e outras, por nunca terem em vida a possibilidade de viver seu amor na plenitude por intervenções alheias. A perda não é ciência exata, por isso não há como mensurar a dor, a falta ou o vazio que carregamos com o passar dos dias. E a perda à distância é ainda mais dolorida, afinal, quem não queria ao menos se despedir de quem se foi? Saudar aos Orixás e pedir que Exú possa guiar a nós que aqui ficamos, e conceder tranquilidade àqueles que não a encontraram na Terra.


Com o tempo, aprendemos mais com os Orixás do que com os livros. Mesmo sem ter dignamente sua história retratada em todos os cantos do mundo, são os ensinamentos ancestrais — passados de geração em geração — que, em plena era da inteligência artificial, ainda nos confortam e ensinam que é preciso seguir. Afinal, não importa em quantos pedaços você foi partido, o mundo não vai parar para que você se conserte.


A perda de alguém que amamos tira nossa vontade de viver, sorrir, levantar e enfrentar o que for preciso. Despedir-se de alguém importante é quase um apagamento social do nosso eu no momento do desespero. E perder tantas pessoas de uma vez só? A cabeça dá um nó, o coração se enche de angústias e incertezas, e cada um sente à sua maneira — pois não existe fórmula única para sentir, chorar ou se despedir.


É tudo tão visceral e cruel que o mundo acaba por banalizar. Alguns trabalhos nem te dão folga. Não podes chorar, tens que produzir. E se chorar demais, vão dizer que vai acabar como quem você acabou de enterrar. Dói demais ter que, todos os dias, silenciar uma dor que vem acompanhada de culpa. Não é desculpa: CARALHO, tem gente que diminui minha dor para que eu possa trabalhar.


Hoje queria falar de família, mostrar a alegria de dizer que os ensinamentos deles me fazem avançar. Mas a dor presa vira revolta, e ninguém sabe o que há depois dessa volta. Muitos sucumbem a substâncias apenas para não encarar a realidade.


A morte em vida é nossa família: quem te ama sempre vai existir dentro de você e na história contada, mesmo que apenas entre duas pessoas. Assim como no espiritual, o axé não é comprado em terreiro ou esquina. Quem tem, sabe. E, principalmente, entende o que é se reconectar para viver com quem já partiu do carnal em qualquer lugar. Vai doer sempre, todos os dias, mesmo nos momentos de maior alegria. O que me dá sentido é honrar meus ancestrais e seus ensinamentos, que ninguém vai diminuir ou manchar.


Tenha valor, não preço. Guarde com apreço a voz, o cheiro, o sorriso e o abraço — pois são esses momentos simples que nada conseguirá apagar. É por isso que digo sempre o quanto é importante falar que ama, mesmo que soe redundante. A única certeza que temos é que não sabemos quando quem amamos deixará este plano.


Acenda velas, incensos, o que precisar. Pode ser amém, axé, aleluia ou testemunha de Jeová — só não diminua meu laroyê quando o seu caminho cruzar. Não se compra Orixá com dinheiro, nem se prende ninguém com tambor que cantou para libertar meus ancestrais.


Sinta. Sinta muito, todos os dias. Chore também, porque dói — não só de alegria. Num mundo de aparências, influências e pedofilia, quem é de verdade sempre será excluído de grupos onde reina a tirania. Não se entregue, não se largue. Reconecte-se com seu eu, com sua melhor versão. Valorize sua dor, sinta-a em toda a sua imensidão. Lembre que cascatas são rios que caem, e o espetáculo é o humano que contempla sem saber com exatidão o que é.


Finalizando, quero te dizer: leia mais, dance mais, desligue o celular, beba água, caminhe, plante algo para cuidar, cozinhe seu alimento. Seu corpo é seu templo. Não deixe a urgência médica te pegar.



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