BATIDÃO NEGRO DA CIDADE CARIOCA
Nos anos 1990, o funk torna-se cada vez mais popular, principalmente,
entre as camadas mais pobres da população carioca. Multiplicam-
se os números de bailes e entram em cena os sujeitos que
foram definitivos para a construção da identidade própria desse
gênero musical, os MCs. A partir dessa época, o funk começa a ser
cantado em português. As letras refletem o dia a dia das favelas e
bairros pobres, ou fazem exaltação a elas (muitos desses raps surgiram
de concursos de rap promovidos dentro das comunidades. Nesse momento, o
do Rio de Janeiro, atraindo jovens de classe média para os chamados
bailes de comunidade) – bailes que acontecem em favelas. O
funk passa a ser tocado também em locais da zona sul.
Todavia, junto com a expansão do funk, cresce um racismo
inconfessável, na forma de um preconceito musical. Se nos anos
1980, o funk era veiculado em cadernos de cultura e de comportamento
dos jornais, nos anos 1990, passará a ocupar, principalmente,
os cadernos policiais desses mesmos jornais. Segundo
Herschmann (2000, p. 180), o jovem negro da favela ou o funkeiro
“vai sendo apresentado à opinião pública como um personagem
‘maligno/endemoniado’ e, ao mesmo tempo, paradigmático da
juventude da favela, vista como revoltada e desesperançada.”
Um acontecimento foi crucial para que tal imagem dos funkeiros
ganhasse força: os chamados “arrastões” . Vale destacar que esse termo
foi o nome dado pela mídia para uma suposta “invasão” de uma
das praias mais famosas do Rio de Janeiro por centenas de jovens
funkeiros, habitantes de favelas, que, segundo os jornais, só estavam
lá para saquear os banhistas de classe média. Como já destaquei, o
funk não teve início com o “arrastão”, mas esse evento acelerou o seu
processo de popularização, arremessando os jovens das favelas para o
centro do cenário midiático. Tal evento, amplamente noticiado e
estudado por críticos culturais (cf. Herschmann, 2000; Yúdice,
2006; Arce, 1997), tornou-se uma espécie de marco no imaginário
coletivo da história do funk e da vida social da cidade.
Pretendo, aqui, destacar um aspecto nas matérias sobre o funk
e o arrastão que, de alguma maneira, nos permite compreender
como os significados raciais são silenciados e articulados na construção
da imagem da cidade do Rio de Janeiro. É interessante notar
como essas notícias sobre os funkeiros – considerados o “novo
pânico” ou o “novo medo” do Rio de Janeiro – vieram, muitas
vezes, acompanhadas de mapas da cidade, que propunham identificar
as favelas de proveniência desses jovens e alertar os leitores
sobre quais seriam as “áreas de risco” na cidade e nas praias. Destaco,
portanto, fragmentos dessas narrativas do discurso jornalístico,
que parecem tecer uma espécie de “cartografia do medo”, intrinsecamente
relacionada com a racialização dos espaços e das
identidades jovens na cidade do Rio de Janeiro.
Uma das matérias veiculadas no jornal Folha
Texto: Adriana Carvalho Lopes - 2011 (Livro Funk-se quem quiser - No batidão negro da Cidade Carioca)



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